TOPOGRAFIAS ESTÉTICO-AFETIVAS

A LITERATURA E O LITERÁRIO EM MINHA FORMAÇÃO, DE JOAQUIM NABUCO

 

Italo Moriconi –UERJ

 

A “formação” sobre a qual fala Joaquim Nabuco em seu relato autobiográfico apresenta uma dualidade, uma dobra. Por um lado, ela é “formação” no sentido de educação formal, aquisição dos valores eurocêntricos, processo em que a formação do indivíduo da elite é a condição pela qual se pode dar também a formação da nacionalidade. Trata-se do pólo “atração do mundo”, título do capítulo IV de Minha Formação Nesse pólo, a noção de formação pode ser lida tanto na clave do sistema de auto-modelagem tributário da Bildung iluminista quanto na clave do tema elaborado pela tradição de pensamento da USP, no sentido de formação histórica de nosso país enquanto país novo. Por outro lado, no pólo “massangana”, título do cap. XX, temos a dimensão “menino de engenho”: aqui formação pode ser lida como “romance de formação”, no sentido de romance de família, conjunto de narrativas constitutivas e ordenadoras dos fantasmas e afetos individuais. Estes, na sua dobra social, remetem à herança, àquilo que vem de longe, àquilo que o Brasil já é, antes mesmo de se projetar para o futuro no seu desejo de civilizar-se, um desejo estratégico que só é consciente entre os membros da classe senhorial. A formação propriamente dita, ou civilização,algo adquirido por esforço construtivo e consciente, e o romance de formação, herança afetiva e genealógica impressa como tatuagem no corpo e na mente, constituem os dois pólos determinantes do conceito geral de formação tal como trabalhado no discurso autobiográfico de Joaquim Nabuco.

 

Interfaces do literário

 

Quando nos detemos no papel assumido pela literatura em Minha Formação, verificamos porém que não é tão simples, como talvez nosso olhar esquematizante pudesse querer fazer crer, a relação entre civilização e romance de formação na Bildung modelar do homem público brasileiro oitocentista. Não existe uma pureza no influxo externo. Ele é sempre filtrado pelos atos de seleção destinados à reprodução e sobrevivência da classe senhorial, que significa a sobrevivência da própria Nação, pois esta, enquanto projeto corporificado num Estado, só interessa mesmo e diz respeito apenas a essa classe. Os valores civilizatórios europeus e norte-americanos interessam apenas quando são considerados universalizáveis. Dos europeus e de nossos louros irmãos do Norte não interessam valores que sejam reconhecidos como particularistas. Boa parte da dimensão “atração do mundo” no discurso de Nabuco em Minha Formação opera avaliações da taxa de universalidade ou de particularismmo de cada traço cultural europeu ou americano por ele analisado.

Analogamente, também não existe uma pureza de “sentimento íntimo”, a não ser num nível muito básico de pura afetividade, anterior a toda linguagem, a qualquer educação. No caso de Joaquim Nabuco, a evocação das fontes mais arcaicas desse sentimento passa pelo exercício literário, o qual tem como língua apropriada o francês, não o português. O sentimento íntimo de Nabuco é bilingüe, assim como os escravos que ele evoca em sua primeira infância como menino no engenho de Massangana eram bilingües pois amoldavam o português às línguas africanas. A língua européia para o membro da elite, a língua africana para o escravo. O fato de não existir uma língua brasileira estável leva a uma situação em que os pólos anteriormente identificados se interpenetram e até se equivalem em certos níveis. Se o pólo da formação estrito senso representa a aquisição de linguagem, bilingüe desde sempre entre a língua local e a língua de civilização, a verdade é que o pólo do romance ou remete à ausência de linguagem ou também ele já é bilingüe de saída. Há um bilingüismo inerente à formação social brasileira no século passado.

A literatura exerce o papel de cimento e de instrumento de interpenetração entre dimensões apenas aparentemente distintas. Como é previsto paradigmaticamente no modelo político-pedagógico da Bildung iluminista, literatura e estética fornecem o ponto de apoio para a totalização dos discursos nos planos da moral, do afeto e da política. O lugar estratégico ocupado pela abordagem do literário no discurso autobiográfico de Nabuco vem do fato de ser por intermédio da cultura literária que se constrói a perspectiva humanista e abrangente capaz de estruturar o olhar cosmopolita e superior (no sentido de panóptico) do homem público educado. Na modernidade ocidental, particularmente aquela em que uma estrutura parlamentar constitui um eixo fundamental do poder (tal é efetivamente o caso do Brasil oitocentista) o homem público de primeirissimo escalão deve necessariamente ser também um homem de letras, que significa dizer, um homem dotado das qualidades humanistas sem as quais não pode falar nem legislar em nome de todos e para todos, aí incluídas agora tanto a pequena burguesia e classe média urbanas quanto a escravaria das senzalas e a população negra liberta, que ocupa os interstícios do espaço social, os entre-lugares.

Antes de tornar-se político, Nabuco passa pelo estágio das letras, como nos conta em Minha Formação. Ao passar por tal estágio, adquire uma patente que jamais se despregará dele. O homem público brasileiro neste molde clássico pode abandonar ou secundarizar a vida literária em detrimento de tarefas ligadas ao Estado, mas jamais abandona a idéia de que sua qualidade mais profunda, mais autêntica, aquele lado de si próprio de que ele mais gosta e mais se orgulha é o literário. Darcy Ribeiro ou José Sarney são manifestações de um tipo profundamente enraizado na definição do perfil do homem de poder em nossa civilização senhorial. Como observou pioneiramente Antonio Candido, os indivíduos de nossa elite oitocentista são doublés de intelectual e político, no sentido de que não há intelectuais que não sejam políticos, embora obviamente a recíproca não seja verdadeira.

A tematização das relações com a literatura está presente em todos os momentos do texto de Minha Formação, mas existem três capítulos especificamente dedicados a ela, os de número VII (“Ernest Renan”), VIII (“A Crise Poética”) e IX (“Adido de Legação”). São capítulos riquíssimos por trazerem de maneira explícita uma série de valores e idéias que se tornaram clichês, servindo, por isso mesmo, como retrato fiel da ideologia literário-pedagógica prevalecente à época e que hoje nos parece uma relíquia exótica. Mas Nabuco não fica só nisso. Se como crítico ele se revela mero repetidor de clichês, por outro lado, nesses capítulos ele relata com sinceridade sua constatação de que não tinha talento literário, talento para poeta, embora muito se tivesse empenhado nesse projeto em sua primeira juventude. Temos aí um dos momentos, sempre grandiosos, de auto-exposição de fragilidade, que pontuam o texto de Minha Formação. No capítulo VIII, ele reconhece um fracasso. Fracassou como poeta. Poeta em francês, ça va sans dire....

Mas o interessante na tematização do literário em Minha Formação, além do valor documental (ao expor com clareza o clichê) e do valor exemplar em se permitir uma performance de fraqueza, está no que se segue, está na tentativa que Nabuco faz de entender de que maneira o literário alimentou toda sua relação com o estético e qual o papel da estética na conformação de sua personalidade política. Joaquim Nabuco formula uma noção de estético-político extremamente interessante, que fica em esboço mas nem por isso deixa de ser brilhante. O olhar panóptico e a visão vertiginosa fazem deste homem de poder vivendo no momento da escrita de Minha Formação uma profunda crise existencial alguém que, como se diz hoje na gíria, “entendeu tudo”. A lucidez manifesta nos capítulos VIII e IX contrasta com “Massangana”, em que a apreensão panóptica das coisas se vê abafada pela pura e simples expressão de uma profundidade que assoma como emoção. Estruturalmente falando, “Massangana” é o ponto de fuga do texto de Minha Formação, fazendo contraponto primeiro ao capítulo “Atração do mundo” e mais adiante, como vemos aqui, à tríade de capítulos sobre o literário.

Recapitulemos de maneira bem sucinta a seqüência de argumentos alinhavados na tríade. Na narrativa de Minha Formação a vontade literária se enraíza no “humus” (expressão do próprio Nabuco) das primeiras leituras dos tempos de estudante e em seguida define a primeira fase de um período diletante (“lazaronismo intelectual”, dirá Nabuco) quase todo passado no exterior, primeiro na França por conta própria e, depois de um breve interregno no Brasil, como funcionário diplomático, adido desfrutável, sucessivamente em Londres e em Nova Iorque. O período todo se estende de 1873 a 1879, quando, novamente no Brasil, Joaquim Nabuco é compelido a entrar para a carreira política, na qualidade de herdeiro do pai e beneficiário de seus esquemas de compadrio. Este é o período cuja narrativa e avaliação constituem o grosso do livro e que tem no capítulo IV, “Atração do Mundo”, seu ponto de partida. A fase exclusivamente literária ocorre na etapa francesa. Nabuco leva seu volume de versos em francês a Paris e dedica-se a procurar figuras ilustres em busca de reconhecimento e aceitação. O livro intitula-se Amour et Dieu. Consegue elogios escritos de ninguém menos que Ernest Renan e Georges Sand. Seria a Europa curvando-se ante o Brasil? Nem tanto. Depois de mais algumas tentativas no período londrino, Nabuco logo compreenderá que os elogios parisienses não tinham passado de meras formalidades. Inteligente que era, genuíno leitor que era, finalmente compreendeu que não tinha vocação para poeta e que Amour et Dieu era um livro ruim. Eis o que lemos no capítulo VIII:

 

O fato é que não possuo a forma do verso, na qual a idéia se modela por si mesma (...) que nenhum artifício nem esforço pode imitar. (...) Quanto à grande poesia, à poesia de imaginação e criação, poema, romance, balada que fosse, para essa eu seria incapaz, além da insuficiência do talento, pela falta de coragem para habitar a regiào solitária dos espíritos criadores, os quais vivem (...) sem vida própria, autômatos da sua inteligência e da sua vontade, como em um sonho acordado.[1]

 

Diante disso, Nabuco desistirá de profissionalizar-se como artista. Conclui que é escritor, mas não poeta e nem artista (pois o fato de não ser poeta também não significava que em contrapartida lhe estivessem sendo facultados fôlego ou talento para a prosa ficcional). Sua desistência, porém, não representa reconhecimento ou elogio a um hipotético caráter diletante ou desinteressado da atividade literária. No capítulo VIII, Nabuco defende a profissionalização do escritor, artista ou não artista.[2] Segundo ele, a profissionalização deve se dar através do estudo sistemático da história como fundamento da atividade da escrita. Tanto o escritor artista, que Nabuco deixará de ser, quanto o escritor não-artista, que Nabuco se resigna a ser, só se tornam profissionais se se dedicam ao estudo da história. Declara Nabuco que esta foi lição diretamente recebida de Renan na forma de conselho. Na verdade, o escritor não-artista deve-se tranformar em historiador tout court, algo que Nabuco considera ter finalmente conseguido por em prática ao escrever Um Estadista do Império, a monumental biografia de seu pai, texto matricial para a compreensão de nosso século XIX sob o prisma do interesse senhorial.

O que sobra para a literatura depois da (previsível) renúncia à carreira de homem de letras e do mergulho irreversível na carreira de político nas três dimensões complementares abraçadas por nosso personagem – a de parlamentar, a de agitador/mediador do abolicionismo, a de historiador-memorialista de sua própria família? A fase literária, européia, e o lugar posterior do literário, uma vez ultrapassada a etapa diletante das viagens, justapõem-se no parágrafo final do capítulo VIII e nos indicam a resposta:

 

(...) eu trocara em Paris e na Itália a ambição política pela literária: voltava cheio de idéias de poesia, arte, história, literatura, crítica, isto é, com uma espessa camada européia na imaginação, camada impermeável à política local, a idéias, preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo o que em política não pertencesse à estética, portanto também do republicanismo – porque a minha estética política tinha começado a tornar-se exclusivamente monárquica.[3]

 

O que me parece notável nesse trecho é o elo que Nabuco estabelece entre formação literária (necessariamente européia), estética e política, lançando ao final a idéia genial de “estética política”. Ou seja, Nabuco não se refere a seu monarquismo nem como ideologia nem como escolha racional. É claro que seu monarquismo também é isso, mas o interessante a ressaltar é que para ele o plano de determinação mais primordial se dá no nível estético. Entre republicanismo e monarquismo, trata-se em primeiro lugar de opção estética, se encarada a questão sob o prisma do processo de formação do membro da elite. Observe-se ainda que a estética se coloca como a dimensão por excelência da interface, do cimento entre esferas diversas e conflitantes. É por meio da estética que Nabuco pode se religar à política local, da qual o afasta a mesma estética, enquanto particularizada na província literária.

Essas conexões retóricas, que são deixadas no texto de Minha Formação como sugestões de relance, voltam a aparecer no capítulo seguinte, “Adido de Legação”, onde se lê:

 

A verdade é que, entre as molas do meu mecanismo, nenhuma teve a elasticidade e a força da que eu chamaria a mola estética.[4]

 

E mais adiante:

 

(...) meus erros foram desvios de idealização; eu nunca teria podido confessar uma idéia, uma crença, um princípio, que não fosse para mim um imã estético (...) Para sentir, sempre que a hasteei, a minha dignidade, a minha altivez, o meu espírito expandir-se, era preciso que o signo monárquico atuasse em mim, como uma parcela da arte que está misturada com a história e que de algum modo a diviniza.[5]

 

Nos parágrafos seguintes, vemos que para ele existe uma “consciência estética” que molda uma visão de mundo a partir de formas ideais cujo poder de ordenamento do real moral e político é determinante porque se deposita no plano inconsciente. Ou seja, o estético é a dimensão que dá forma ao instinto afetivo. Nesse sentido, o estético opera a interface entre as duas dimensões da formação de que tratei na seção anterior. Ele se compõe do resíduo formal deixado pela dimensão cosmopolita e se enraíza no fundo mesmo do sentimento íntimo:

 

Cada um de nós é só o raio estético que há no interior do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem idéia do que o homem realmente é. Nesta confissão da minha formação política, devo, para não deixar ver somente a máscara, o personagem, dar uma espécie de fotografia dos símbolos que se imprimiram e reproduziram mais profundamente no meu cérebro. Assim se reconhecerá que a política não foi senão uma refração daquele filete luminoso que todos temos no espírito.[6]

 

De volta a Massangana: o trauma da escravidão

 

Se o assunto é literatura, talvez o capítulo XX de Minha Formação possa ser visto como o mais literário do livro. Aquele em que verdades nuas e cruas irrompem nas linhas e entrelinhas de uma linguagem comandada pela vontade de estilo. Não consigo resistir ao desejo de passar na íntegra ao leitor a seguinte página antológica da nossa literatura. Antológica como exemplo bem sucedido de evocação descritiva – valor técnico. Antológica pelo fato de apresentar com nitidez a topografia do poder senhorial – valor mimético-documental. Trata-se do primeiro parágrafo de “Massangana”. Vamos a ele:

 

O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber... Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva... Passei esse período inicial, tão remoto, porém, mais presente do que qualquer outro, em um engenho de Pernambuco, minha província natal. A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo... Nunca se me retira da vista esse pano de fundo que representa os últimos longes de minha vida. A população do pequeno domínio, inteiramente fechado a qualquer ingerência de fora, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuídos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de rendeiros, ligados ao proprietário pelo benefício da casa de barro que os agasalhava ou da pequena cultura que ele lhes consentia em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a residência do senhor, olhando para os edifícios da moagem, e tendo por trás, em uma ondulação do terreno, a capela sob a invocação de São Mateus. Pelo declive do pasto árvores isoladas abrigavam sob sua umbela impenetrável grupos de gado sonolento. Na planície estendiam-se os canaviais cortados pela alameda tortuosa de antigos ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o pequeno rio Ipojuca. Era por essa água quase dormente sobre os seus largos bancos de areia que se embarcava o açucar para o Recife; ela alimentava perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés, a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas pescarias. Mais longe começavam os mangues que chegavam até à costa de Nazaré... Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o aroma, espalhado por toda a parte, das grandes tachas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planície transformavam-se em uma poeira de ouro; a boca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradável e balsâmica, depois o silêncio dos céus estrelados, majestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruído da vaga. Eu às vezes acredito pisar a espessa camada de canas caídas da moenda e escuto o rangido longínquo dos grandes carros de bois...[7]

 

Agregando-se aos valores técnico e mimético, este trecho possui também um valor canônico na história literária e cultural, por fornecer um clichê de tantos e tantos parágrafos encontráveis na literatura regionalista nordestina. Mas, na seqüência, a evocação do passado infantil idílico reserva surpresas chocantes ao leitor contemporâneo, imbuído dos valores da cidadania e da autonomia individual, especialmente o leitor do hoje hegemônico Centro-Sul do país, muitas vezes oriundo de estoques culturais marcados por ondas mais recentes de imigração européia ou asiática e que portanto, apesar de brasileiro, sente-se completamente estrangeiro em relação ao tipo de quadro bucólico pintado por Nabuco. O leitor contemporâneo: este que no Sudeste, ainda por cima, já não conhece talvez mais nada que não seja a bruta e realista educação sentimental pautada pela objetividade das relações referidas ao mercado e a revolucionada plasticidade dos laços de família esgarçados.

Me pergunto se tal estranheza, provocada pela explicitação quase obscena da “síndrome de Massangana”, a nostalgia da escravidão, não seria uma estranheza inquietante, misto de pânico e identificação diante da conjuração de fantasmas que talvez permaneçam atuantes e inextirpáveis no romance de formação de qualquer intelectual e/ou político brasileiro. Será que nós, trabalhadores e produtores intelectuais, que não temos sobrenome de cepa lusitana, que fomos educados em escolas públicas nas grandes metrópoles e que em boa parte dos casos nos doutoramos em universidades laicas estrangeiras, será que nós também estamos irreversivelmente contaminados pelo trauma da escravidão? Será que nos tornamos mental e emotivamente “senhores feudais” mesmo no contexto de intensificação capitalista que marca o Brasil exatos cem anos depois da publicação de Minha Formação?

Terá razão Luiz Costa Lima, que definiu a nostalgia da escravidão como trauma nacional, algo que e que precisa ainda ser superado por um esforço auto-reflexivo e auto-crítico simultaneamente individual e coletivo?

Costa Lima apenas lança a idéia de que o trauma da escravidão estaria na raiz da ausência de pensamento crítico no Brasil, sem propriamente desenvolvê-la, restringindo-se a apontar o elo entre tal ausência e um genérico “sentimentalismo” resultante do trauma. Levanto aqui elementos que operam a partir dessa intuição importante, embora concorde apenas em parte com ela. Em parte porque não acredito que inexista pensamento crítico no Brasil, apesar de também achar que ele nem de longe pauta o funcionamento das instituições públicas no país (universidade, imprensa e mídia e política profissional). Mas a meu ver, o que o capítulo XX de Minha Formação faz é simplesmente revelar limites de classe impostos ao pensamento crítico no quadro da formação da elite oitocentista em nosso país.

Nessa linha, o que me parece frutífero como aprendizado possível de ser extraído de uma leitura de “Massangana”, mesmo marcada pela estranheza e pela distância, é identificar o que exatamente impede o florescimento cabal do pensamento crítico numa dada configuração social e intelectual (vale dizer, formativa, ou ainda: político-pedagógica). Quase numa palavra, usando a boa gíria: os limites ao criticismo evidenciados pela tematização da nostalgia da escravidão são dados pela ausência total de simancol. Ou seja, ausência de auto-crítica, naturalização de sentimentos, considerados intransponíveis porque dados como espontâneos e enraizados num plano afetivo pré-lingüístico, pré-formativo. Não se trata de invalidar ou rejeitar sentimentos, muito menos desqualificar a noção de criação artística como expressão e análise de sentimentos. Pelo contrário, considero que a análise de sentimentos constitui uma das mais importantes funções do discurso literário nas condições em que contemporaneamente se dá a formação. Uma análise literária (ficcional ou não) de sentimentos (ficcional ou não) será tanto melhor quanto estiver associada a uma crítica de sentimentos. Criticar os próprios sentimentos é estar engajado em algum tipo de revolução existencial. Mais importante ainda é identificar por trás de valores e conceitos que nos parecem auto-evidentes sentimentos criticáveis ou no mínimo relativizáveis.

No capítulo “Massangana” existem tanto expressão quanto análise de sentimentos. Análise do elo afetivo que Nabuco ingenuamente acredita haver existido entre senhores e escravos no passado idílico dos engenhos de açúcar fechados em si. Mas não existe crítica de sentimentos. O mais escandaloso para o leitor contemporaneo é que Nabuco elogia o desinteresse, a dedicação e a devoção que ele acreditava serem os fatores determinantes na relação do escravo com os senhores. Nabuco em “Massangana” se enternece com a lembrança de seus escravos como se falasse de animais de estimação. E embora a primeira versão deste capítulo de Minha Formação tivesse sido um texto originalmente escrito em francês, Nabuco enfatiza que o sentimento por ele evocado é tão básico, tão genuíno, que se situa num plano de puro afeto, um plano sem palavras, um plano que permitia a comunicação pela pele para além da impossibilidade de comunicação lingüística entre o francês do senhor e o africano do escravo.

Mais ofensiva ainda é a cena exemplar rememorada (ou inventada) por Nabuco, de um escravo que se joga a seus pés, ele criança com menos de oito anos, a implorar-lhe que interceda junto à todo-poderosa Madrinha para não ser vendido a outro senhor. Causa repugnância o fato de Nabuco comprazer-se sentimentalmente no papel de protetor dos fracos que lhe cabia como membro infante da classe senhorial. O sentimento da proteção senhorial: eis algo a ser expresso, analisado, mas também rejeitado. Para que o pensamento crítico possa existir é preciso que estejamos preparados para extirpar pedaços de nós mesmos e que reconheçamos em nós mesmos o fascismo e a iniqüidade que tão facilmente identificamos nos outros.

Se o conteúdo dos sentimentos que Nabuco celebra em clave de retorno do recalcado me causa engulhos porque não me reconheço ideologicamente nesse Brasil primordial que ele idilicamente descreve, pois minha história é toda outra, por outro lado não posso deixar de reconhecer a grandiosidade do ato de Nabuco ao escrever “Massangana”. Grandiosidade intelectual, por não ter tido medo de se expor ao risco de desmoralização de toda a biografia de líder abolicionista que construíra ao longo de uma vida pública bastante influente numa fase do processo de construção do moderno Estado-Nação brasileiro. Nosso moderno Estado-Nação, hoje em vias de reciclar-se para uma nova história, a história futura que nos apontam o Mercosul e as integrações supranacionais tanto ibérica quanto luso-africana, além da, por que não?, integração panamericana em função da qual Nabuco trabalhou decisivamente, nos anos posteriores a Minha Formação. São integrações necessariamente conflitivas e vividas diferencialmente pelos múltiplos grupos sociais e culturais. Tais relações vividas são emolduradas (framed) pelo Estado em transformação mas podem obedecer a lógicas outras que não apenas aquelas determinadas pela lógica da moldura.

Sobretudo, cabe destacar a grandiosidade literária do capítulo “Massangana” por realizar de maneira cabal o objetivo máximo, ainda hoje válido, traçado para o texto literário pela pena de Alencar, o oponente juvenil de Nabuco que depois este reconheceu ter estado coberto de razão na famosa polêmica. Pois para Alencar, tal como se pode ler por exemplo no prólogo de Iracema, o objetivo da ficção literária (e aqui proponho que se leia isso no sentido de ampliar o conceito de literário para abarcar tanto textos ficcionais quanto não ficcionais, como a autobiografia e o ensaio) é infundir vida aos valores e idéias abstratas, criando e conjurando em imagens (fantasmas) o sistema de sentimentos que lhes corresponde. Cabe ao discurso literário, entre outras coisas, desvelar os conflitos de sentimentos suscitados pelo domínio das racionalidades discursivas, sejam elas quais forem: a idéia de pátria no século 19, a diáspora das subjetividades hoje.

Em “Massangana” Nabuco revela o complexo de sentimentos associado à idéia que ele foi pioneiro em veicular no Brasil e que seria retomada e desenvolvida por Gilberto Freyre: a idéia de que o sistema escravocrata era um mal que afetava irreversivelmente tanto escravos quanto senhores, enredando-os numa miríade de interesses libidinais comuns. A fisiologia dessa perversão é obscenamente exposta nas páginas simultaneamente altivas e melancólicas do capítulo “Massangana”. O texto simultaneamente sincero e falso de Nabuco (simplesmente não é possível acreditar no caráter idílico das relações de proteção) vale e continuará valendo, por aquilo que se pode fazer com ele no ato da leitura. Não sei se para o alto. Mas para a frente, com certeza, estamos todos indo. Se para melhor ou pior, dependerá um pouco do acaso e um pouco de cada escolha e de cada decisão tomada, nos planos individual, grupal, nacional. A autobiografia de Nabuco pode ainda desempenhar um papel terapêutico e esclarecedor se for lida como alimento para a auto-reflexão crítica, ou seja, como incentivo à eliminação das auto-complacências e auto-evidências de qualquer tipo nos planos intelectual e político.



[1] Joaquim Nabuco, op. cit., p.73.

[2] Interessante observar que, segundo Flora Sussekind, Nabuco defende ponto de vista diametralmente oposto a esse em Pensées Detachées.

[3] Joaquim Nabuco, id.ib., p. 78.

[4] Joaquim Nabuco, id. ib., p. 79.

[5]Id.ib., p. 79/80.

[6] Id.ib., p. 50. Tendo em vista o tema específico do presente ensaio, deixo de lado as conexões estabelecidas por Nabuco entre o ideal estético e a política e um terceiro termo também muito importante no universo retórico de Minha Formação: a religião.

[7] Id. ib., pp. 159/160.